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Problemas de saneamento mais visíveis com chuvas

Em 05/01/2012

Jairo Moisés Picanço, 46 anos, serviços gerais, viu seu sonho de se livrar dos constantes alagamentos do canal da travessa 14 de Março, no bairro da Cremação, morrer na beira. Há cerca de três anos, as obras de macrodrenagem foram interrompidas a poucos metros da sua casa, próxima à curva do canal, na esquina da rua Caripunas. Resultado: as residências beneficiadas pelas obras, como as da rua Timbiras, a apenas um quarteirão de distância da curva do canal, já não sofrem mais com o pesadelo de ver a casa invadida pela água. Já Picanço, não tem outra alternativa senão repetir a mesma desgastante rotina.

“Toda vez quando chove, sou obrigado a levantar móveis do chão. Construí um degrau na porta, mas a lama continua entrando. O jeito é ficar de olho. Moro há 30 anos aqui, e sempre teve alagamento. Quase sempre sei dizer quando vai encher ou não”, afirma.

Mas o olhar vigilante do morador pode não dar conta do recado este ano. Segundo a previsão da Rede Estadual de Previsão Climática e Hidrometeorologia do Pará, a cargo da Secretária de Estado de Meio Ambiente (Sema), o índice de chuvas na Região Metropolitana de Belém (RMB) deve ficar acima da média, com 20% a mais de chuvas para o período. “Em tese, o período de inverno deste ano será semelhante ao do ano passado: muito rigoroso”, atesta o meteorologista Antônio Sousa, coordenador de informação e planejamento hídrico da Sema.

A previsão é de chuvas quase diárias neste inverno amazônico. Em Belém, a média de chuva acumulada para o mês de janeiro será de 360 a 420 milímetros, considerada normal para o período, mas suficiente para provocar alagamentos na RMB - um levantamento feito pela Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) mostra 51 pontos críticos na capital e no distrito de Icoaraci.

Em decorrência do inverno mais rigoroso, a prefeitura adiantou-se no serviço de limpeza de canais. Iniciada no dia 1º de agosto de 2011, a “Operação Inverno”, segundo a Sesan, já passou pelos canais do Marte, Vileta, Nina Ribeiro, Mundurucus, Antônio Baena, Cipriano Santos, Santa Cruz e Carapaú. Atualmente, os trabalhos se concentram nos canais do Galo, na Timbó, e Leal Martins, no Marco.

CONSCIENTIZAÇÃO

Realizado por 350 funcionários, o serviço de limpeza - que inclui dragagem e limpeza manual de canais, bueiros e valas, manutenção do sistema de comportas e limpeza de tubos e canais – foi responsável pela retirada de 75 mil toneladas de lixo dos rios e igarapés que cortam a cidade desde o início da operação, prevista para encerrar em junho.

“O desafio é a conscientização da população para evitar o descarte de lixo no canal. As áreas com risco de alagamento estão localizadas geralmente em áreas de periferia, sem saneamento básico e com casas construídas em região de risco, vulneráveis às ações das marés”, avalia Marcus Carvalho, técnico em saneamento da Sesan e coordenador da operação. “Muito já se avançou nesse problema, com o projeto de macrodrenagem. Veja o canal da Pariquis, por exemplo, que não se vê mais alagar. Mas ainda existem muitos empecilhos para os avanços das obras, problemas que vão além da vontade da prefeitura”, analisa.

Um desses problemas seria o próprio canal da 14 de Março que, de acordo com os moradores do local, dependeria do remanejamento de algumas casas à margem do córrego para avançar na drenagem. Mas, segundo a Sesan, o canal é limpo regularmente, três vezes na semana.

Na tarde do último dia 2, o DIÁRIO constatou por lá um grande acúmulo de lixo na água, que fica estancado bem próximo à curva. As margens do canal, neste perímetro, são cobertas pelo mato alto. Não há muretas e nem grades separando a via de terra batida do rio. No terreno também funciona uma espécie de lixão a céu aberto.

“Faz uns oito meses que ninguém do governo passa aqui para limpar o canal. Qualquer chuvinha tá alagando aqui. Já vi uns cinco carros caírem (no canal) desde o começo das chuvas”, afirma Marilza da Silva, atendente de um bar na esquina da 14 de Março com a Caripunas.

No perímetro da Fernando Guilhon entre Generalíssimo e Quintino, no bairro da Cremação, a situação é bem semelhante. Apesar das obras terem sido iniciadas, moradores afirmam que os alagamentos continuam. “Há três anos começaram as obras por aqui e toda vez quando chove a água bate na minha cintura”, afirma o vendedor Nestor Pinheiro, 63 anos. O motivo do atraso seria a desapropriação de uma favela no local, no relato dos moradores.

RESPOSTA

Em nota, a Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb), responsável pelas obras de macrodrenagem em Belém, afirma que em todos os canais beneficiados pelo projeto já é possível atestar a melhoria no escoamento das águas pluviais.

Segundo a nota, atualmente, a macrodrenagem se concentra na sub-bacia da Estrada Nova, que abrange os canais da 14 de Março, Dr.Moraes, Caripunas, Generalíssimo, Quintino e parte de Bernardo Sayão. Cita também projetos de macrodrenagem na Rua dos Mundurucus, Pariquis, Quintino Bocaiuva, passagens Euclides da Cunha, e Luzitânia.

A Seurb declara ainda que nos canais da Caripunas, Generalíssimo e Quintino estão sendo executados os estaquementos e revestimentos em placas de concreto pré-moldado, com prazo de 90 dias para conclusão. (Diário do Pará)

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